24/07/2016

Memória

Pergunto-me como se esquece uma mãe, um irmão, o melhor amigo, o primeiro amor. Como se larga subitamente alguém com quem temos história, que nos deu muito, que resistiu ao tempo e a todo o tipo de intimidade?
Hoje as pessoas trocam-se, como coisas. Os homens esquecem-se, como coisas.
As pessoas exercitam a curta memória e tornam-se coisas com pequeno coração. Creio que a falta de memória indicia apenas o começo da pequenez, pois, com o tempo, todos os órgãos e membros tenderão a encurtar de igual forma. Depressa virá o dia em que gente assim, de tão curta, não alcançará coisa nenhuma.
Abandonar pela calada quem nos ama é minguar em memória e corpo inteiro.
Não tenho dúvidas que sofre quem lembra, quem agradece, quem segura e não quer magoar. Mas ser gente com tamanho passa decerto por não esquecer.
Imagino que todo o verdadeiro amor que nos dedicam deva ser sempre preservado, jamais ignorado, alvo de ingratidão. Não somos nada sem o amor do outro. Como se esquece quem amámos, nos amou e, assim, nos engrandeceu?
A memória quer-se presente, longa e cheia, com a voz, o cheiro, os silêncios, todos os gestos. Assim se fazem os bons homens. Atribuindo toda a dimensão merecida a uma mãe, um irmão, um amigo, a um grande amor.

16/05/2016

Avião

Penso nos aviões que apanhas sem mim e no teu medo de voar.
Olho o céu e cada novo rasgo de fumo me lembra as tuas mãos geladas a levantarem voo, por lugares longínquos do mundo, enquanto eu insisto em subir a encosta da nossa velha montanha de terra. 
A cada passo, eu rezo para que me ouças suspensa em bicos de pés sobre os rochedos do caminho: não voes mais sem mim.
Continuo a escutar em toda a parte o machado entre as tuas mãos cortando a lenha para o lume do serão. As tuas mãos agarrando o volante do automóvel por todos os caminhos de cabras do lugar. Ouço-te, por fim, a mergulhá-las no rio, levando todo o corpo com elas até ao fundo do rio, caindo dentro de uma felicidade de menino simples e muito grato. Corpo todo molhado rindo ao sol, é assim que te lembro a cruzar o céu.
Hoje eu tenho a resposta para o poeta e para nós também: amor que serena não termina.
Não existe um minuto de silêncio na encosta de pedra. Toda ela foi tomada pelo fantasma de um aeroporto medonho repleto de aviões onde entras sem mim e não queres aterrar.
Pela noite dentro, penso nos teus voos e no medo de voar. Logo depois, sonho com as tuas mãos acesas abertas na minha direcção: vamos caminhando até ao cimo da montanha, meu amor?

21/03/2016

Poesia (Dia Mundial)

Julgo que a poesia não cabe num dia, nem em qualquer outra fronteira. Eu vejo-a dormir nas cabeceiras, balançar na copa das árvores e na superfície do mar, rugir no jeito com que os homens agarram o corpo das mulheres, deitar-se dentro das camas ao lado das cabeceiras. Sinto-a por toda a parte, sem fim, como um verdadeiro alívio no mundo. Então todos os dias celebram a poesia e quem a consegue escrever é imenso e eterno também.

25/02/2016

Pinheiro

O pinheiro da propriedade vizinha à casa de meus pais era uma árvore lindíssima, o verdadeiro farol da rua, mais alta que todos os telhados das casas.
Lembro-me da presença do pinheiro na minha infância, a vigiar todos os passos da minha infância, a partir do quintal do lado, como naquela primeira vez que subi para uma bicicleta de criança.
Pelo Natal, era costume o meu vizinho sufocá-lo de bolas e farripas, então o pinheiro inchava de vaidade e eu não resistia. Todos os Invernos me apaixonava por ele.
O pinheiro crescia mais depressa do que eu, vivia num espreguiço sem fim, e eu encantava-me com aquilo. Não havia árvore mais bonita e fiel no mundo.
Uma destas tardes, chegando a casa de meus pais, vi que o pinheiro já lá não estava. Os novos proprietários da casa vizinha tinham derrubado, sem aviso e sem dó, a árvore mais bonita do meu mundo. Foi como se a tivessem feito desaparecer por magia, pois nada dela deixaram para lembrança. Simplesmente a tarde caiu, eu cheguei a casa de meus pais e o farol da minha infância já não existia.
O espaço vazio daquele quintal faz-me agora pensar na efemeridade da vida, até para um pinheiro. Principalmente para um pinheiro que é o ponto de observação privilegiado de uma rua, tudo sabe sobre ela e não dá sinais de querer morrer.
Sinto saudades e penso na criança que eu era e só ele, gigante, guardava.
Aquele pinheiro foi uma árvore lindíssima, mais alta que todas as pessoas da minha infância.

04/01/2016

Paixão

Há vestígios de festa por toda a cidade.
Há ondas gigantes a rebentar por toda a costa.
No intervalo entre uma última canção e a espuma do mar a crescer, há um homem que toca uma mulher. Toca-a como um homem toca uma mulher, o que muito se assemelha a um verdadeiro oceano. Ora meigo, ora bravo, ele toca-a como quer e ela sabe que é exactamente aquilo o que tentaram descrever todos os poetas.
Ela toca-o e toca em todo o oceano. As suas mãos mergulham no corpo do homem e tanto descansam e flutuam como se enrolam na ondulação mais violenta da tempestade.
Estar apaixonado é descobrir o oceano.
O homem toca a mulher e ela nada sabe sobre o amor. Sabe lançar-se na corrente e suster a respiração a rir.
Ao abandoná-lo, ela percebe que há vestígios de festa por toda a cidade, que há ondas gigantes a rebentar por toda a costa. Pensa no homem, no fundo dos olhos do homem, imersos pelas águas mais cativantes de que se lembra.
Ela sente o quão é difícil ter de largar um oceano.

18/11/2015

Morte

Quando somos jovens, ninguém nos ensina a morte de um jovem, como nós. Ensinam-nos a morte dos velhos, de gente antiga, cujo prazo de validade expirou de forma expectável, pois para lá de velho o caminho é só um. Assim nos ensinam quando os avós desaparecem para sempre numa tarde oca de Inverno ou alguns vizinhos começam, de forma gradual, a abandonar a região.
À medida que crescemos, a lição entranha-se e a morte torna-se uma coisa gasta, cujo prazo de validade expirou há muito tempo com o sorriso do avô sempre suspenso no cajado e o aceno de mão da avó em despedida à porta da casa na montanha. Vai-se o sorriso, vai-se o aceno, vai-se a morte, e assim a nossa longa vida prossegue.
Há, contudo, uma possibilidade de desfecho tão medonha que ninguém quer ser responsável por nos ensinar. Apesar de real como qualquer outra coisa do mundo, ninguém a fala com medo do pesadelo que é apenas falá-la. Para alguns, a morte não chega velha, não dá tempo, não espera toda a vida - em vez disso, irrompe cedo carne adentro, sacrificando todo o brilho de que é feita uma alma muito jovem, muito viva.
Ninguém nos prepara para a morte da criança com quem esfolamos os joelhos no asfalto ou engendramos partidas maléficas tardes a fio. A criança que se torna no adolescente com quem partilhamos os trabalhos de casa na escola e as pipocas no cinema. O amigo com quem crescemos e descobrimos uma parte do mundo e da vida, tão diversa e tão longa, como nos ensinaram que deve ser para qualquer jovem como nós.
Morro de medo desta morte nova, que só hoje aprendo e para a qual nunca me preparei.
Anseio o ontem, onde todas as minhas lembranças eram gente viva, muito distantes de qualquer ridículo prazo de validade, reservadas a um futuro sem fim à vista. Onde ninguém tinha de me ensinar a morte tão próxima e antecipada de um jovem, como eu.

13/10/2015

(Pós-)Guerra

Sacudo as mãos, limpo as armas, olho dentro dos meus olhos em frente ao espelho: em nenhum destes momentos me reconheço. Nada de mim encontro, nenhuma alegria, nenhuma dança.
Suponho que seja assim no final de qualquer guerra... Há uma parte do soldado, a mais feliz, sacrificada para sempre.
De que importa a vitória ou a derrota se qualquer dos desfechos comporta a pena imensa de uma gruta em ecos constantes? Dentro de mim, somente uma gruta e um eco constante. Nenhum recheio.
Cruzo a casa, cruzo todas as grutas e todas as casas, e vejo que nada mais existe. No lugar do chão, rompe uma voz abafada e sombria que a toda a hora repete: findada a guerra, não mais se volta a ser o que foi um dia.
Eu sacudo as mãos, limpo as armas, olho dentro dos meus olhos em frente ao espelho... Assim perco todos os dias a minha vontade de sorrir.

14/09/2015

Labirinto

Do alpendre da minha casa de campo eu alcanço um mar de floresta. Apesar de distante dos verdadeiros mares que povoam o mundo, é em tudo igual a eles. Tão densa e selvagem como qualquer um deles.
A casa está erguida numa encosta da montanha, entre os bichos e a vegetação, de tal modo que mais parece uma toca, um esconderijo camuflado no meio do arvoredo.
Imagino a minha casa como uma espécie nova de arvoredo. Rompe sem ordem do chão, todas as janelas procuram sugar a maior quantidade de luz natural possível e as raízes alastram pelos terrenos vizinhos persistindo na dominância. Como animais numa árvore, aqui comemos, dormimos e nos escondemos do medo. Eu e a minha família de camponeses, para quem o mundo é o mar de floresta que alcanço do alpendre.
Todas as manhãs, a minha família de resineiros bate com a porta de casa e mergulha nesse mar. Vão carregados com púcaros e ferramentas, que nem escafandros exploradores, numa fila indiana constituída por trisavós, bisavós, avós e tios. Evito olhar com atenção para não ver os meus pais, mas também lá vão, talvez até os meus irmãos e meus filhos. Toda a minha gente de sangue sai descalça do ninho e entra na floresta, contornando os silvados, medindo o cheiro aos pinheiros, até se deparar com o rio de resina que pinga brilhante dentro dos campos.
Noutras paragens, lá longe, há gente que entre nos mares como os meus entram nas matas. Do alpendre da minha casa de campo, imagino este labirinto de ramagens e silvas da mesma forma que adivinho o labirinto de ondas e vendavais a existir nesses lugares. Ambos igualmente densos e selvagens.
Todas as tardes, a minha fila de gente pobre regressa a casa e há alguém que não volta. Os homens comandam o grupo, carregando à cabeça os cântaros, por onde escorre a resina direita às mãos e aos cabelos; as mulheres seguem logo depois. Estas tentarão noite fora raspar as réstias de cola que se agarrou ao corpo, mesmo sabendo que um homem se perdeu para sempre dentro do matagal. E que, em breve, chegará também a sua vez.
O meu coração inquieta-se todos os dias no forte deste alpendre. Hoje, que já todos os resineiros da minha família se perderam na floresta, imagino a minha casa de campo, árvore por catalogar, como um farol rochoso plantado à beira-mar.
A porta não bate, as vozes não se ouvem, a fila não segue. Mesmo assim, alcanço o mar de floresta à minha frente e, enquanto há sol, não deixo de esperar por um sinal dos naufragados.
Por estes dias, se cerrar os olhos, vejo ondas, um labirinto feito de espuma e embarcações à deriva. Não há potes nem geringonças, mas os escafandros atirados à morte avistam-se logo a seguir.

24/08/2015

Verão

Se ainda existe o verão, porquê
a nostalgia, a dor feliz que foge e não
regressa?
Fernando Pinto do Amaral

Mergulhar os pés na areia da praia pela manhã.
Cobrir a barriga de grãos de areia.
Sentir o corpo dilatado com o calor.
Sentir o corpo arrepiado com o frio, do mar.
Cheirar o mar.
Avançar depressa contra as ondas.
Nadar até não sentir o frio das ondas.
Suster a respiração por debaixo da rebentação.
Flutuar no mar.
Sentir o calor do sol no corpo molhado.
Adormecer no calor do sol.
Olhar o sol e todas as coisas iluminadas.
Olhar o céu azul.
Fechar os olhos com as pestanas salgadas.
Comer melão.
Vestir pouca roupa.
Sentir calor.
Não sentir frio.
Não fungar.
Não secar o cabelo.
Assistir à multiplicação de sardas no rosto.
Abrir as janelas do carro.
Andar de bicicleta.
Ter luz natural.
Ter calor.
Beber limonada.
Abrir as janelas das casas.
Guardar os cobertores.
Passear à noite de chinelos.
Mergulhar os pés na areia da praia pela madrugada.
Olhar o céu estrelado.
Dormir sem roupa.
Ouvir o mar.
Sentir calor.

22/08/2015

Vento

O automóvel foi rompendo a montanha, curva após curva, sob o sol fosco do final de tarde. O rapaz, já adulto, seguia instalado no lugar do pendura e eu exactamente atrás, rodeados por uma floresta toda enfeitada de luz e sombras escorrendo em direcção ao solo, em direcção à noite.
Eu, contudo, não via a terra, nem as árvores, nem os rebanhos. Para mim não existia nada senão o braço direito daquele homem fora da janela do veículo, pendurado na paisagem.
Ele abria a mão contra o vento, deixando-o embater na palma e escorrer depois pelo espaço entre os dedos. A seguir, mexia o braço em movimentos de onda, como se o mergulhasse na serra. Por fim, fechava a mão e tocava os dedos uns nos outros repetidamente, amaciando as extremidades e sentindo a textura do ar.
Observei-o durante todo o percurso, sem me conseguir mexer, pois depressa percebi que nada de banal existia naqueles gestos: o braço esticado do homem à minha frente tocava os ventos, escolhia o que lhes convinha e capturava-os depois para si com toques cirúrgicos. O braço daquele rapaz debruçado na janela era uma verdadeira rede à pesca de alimento. Nas mãos, nos bolsos, na garganta... Em todas as partes que podia, ele guardava um punhado de vendaval.
Na montanha, ficou um rasto de fumo do automóvel e um tufão por catalogar. E o tempo passa mas eu fixo-me para sempre nessa imagem, que é o seu braço iluminado a balançar ao ritmo do ziguezagueado do carro em viagem, sem nunca recolher.
Ainda hoje, a colheita persiste. E é tal o volume que, à mínima hipótese, todas as correntes acumuladas transbordam corpo fora e à volta do homem registam-se ciclones devastadores. É tão belo quanto mortífero amar alguém assim.
Existem pessoas feitas de vento, o que não quer dizer que sejam cabeça de vento. Desde aquele dia, creio ser esse o caso de meu irmão. Rapaz por fora, furacão por dentro. Homem-vento.