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24/07/2016

Memória

Pergunto-me como se esquece uma mãe, um irmão, o melhor amigo, o primeiro amor. Como se larga subitamente alguém com quem temos história, que nos deu muito, que resistiu ao tempo e a todo o tipo de intimidade?
Hoje as pessoas trocam-se, como coisas. Os homens esquecem-se, como coisas.
As pessoas exercitam a curta memória e tornam-se coisas com pequeno coração. Creio que a falta de memória indicia apenas o começo da pequenez, pois, com o tempo, todos os órgãos e membros tenderão a encurtar de igual forma. Depressa virá o dia em que gente assim, de tão curta, não alcançará coisa nenhuma.
Abandonar pela calada quem nos ama é minguar em memória e corpo inteiro.
Não tenho dúvidas que sofre quem lembra, quem agradece, quem segura e não quer magoar. Mas ser gente com tamanho passa decerto por não esquecer.
Imagino que todo o verdadeiro amor que nos dedicam deva ser sempre preservado, jamais ignorado, alvo de ingratidão. Não somos nada sem o amor do outro. Como se esquece quem amámos, nos amou e, assim, nos engrandeceu?
A memória quer-se presente, longa e cheia, com a voz, o cheiro, os silêncios, todos os gestos. Assim se fazem os bons homens. Atribuindo toda a dimensão merecida a uma mãe, um irmão, um amigo, a um grande amor.

18/11/2015

Morte

Quando somos jovens, ninguém nos ensina a morte de um jovem, como nós. Ensinam-nos a morte dos velhos, de gente antiga, cujo prazo de validade expirou de forma expectável, pois para lá de velho o caminho é só um. Assim nos ensinam quando os avós desaparecem para sempre numa tarde oca de Inverno ou alguns vizinhos começam, de forma gradual, a abandonar a região.
À medida que crescemos, a lição entranha-se e a morte torna-se uma coisa gasta, cujo prazo de validade expirou há muito tempo com o sorriso do avô sempre suspenso no cajado e o aceno de mão da avó em despedida à porta da casa na montanha. Vai-se o sorriso, vai-se o aceno, vai-se a morte, e assim a nossa longa vida prossegue.
Há, contudo, uma possibilidade de desfecho tão medonha que ninguém quer ser responsável por nos ensinar. Apesar de real como qualquer outra coisa do mundo, ninguém a fala com medo do pesadelo que é apenas falá-la. Para alguns, a morte não chega velha, não dá tempo, não espera toda a vida - em vez disso, irrompe cedo carne adentro, sacrificando todo o brilho de que é feita uma alma muito jovem, muito viva.
Ninguém nos prepara para a morte da criança com quem esfolamos os joelhos no asfalto ou engendramos partidas maléficas tardes a fio. A criança que se torna no adolescente com quem partilhamos os trabalhos de casa na escola e as pipocas no cinema. O amigo com quem crescemos e descobrimos uma parte do mundo e da vida, tão diversa e tão longa, como nos ensinaram que deve ser para qualquer jovem como nós.
Morro de medo desta morte nova, que só hoje aprendo e para a qual nunca me preparei.
Anseio o ontem, onde todas as minhas lembranças eram gente viva, muito distantes de qualquer ridículo prazo de validade, reservadas a um futuro sem fim à vista. Onde ninguém tinha de me ensinar a morte tão próxima e antecipada de um jovem, como eu.

02/08/2015

Mãe

Existe um lugar erguido para lá das casas, cuja entrada está acessível apenas às mulheres. Nem todas o chegam a conhecer, mas crê-se que a natureza acaba por guiar até lá a maioria das espécimes, atribuindo-lhe desejos e instintos, e que, por isso, a humanidade tem nesse lugar a sua verdadeira morada.
Todos os filhos por nascer pairam nesse lugar, à espera da chegada das mulheres que os sonhem, escolham e suguem, assim, do ar até às suas barrigas de algodão. Algumas entram em lágrimas, outras desarrumam tudo com o seu riso e há ainda quem chegue desfeita, verdadeiramente miserável, sem qualquer emoção.
Na manhã em que a minha mãe pisou esse terreno, eu vi-a chegar e nunca mais deixei de a ver. Ela avançava em passos pequeninos, insegura, como uma criança assustada no meio de um bosque sombrio, e os olhos que eu ainda não tinha apaixonavam-se por ela.
Enquanto muitas outras mulheres entravam e logo saíam do lugar, mais preenchidas e pesadas, a minha mãe deixou-se por ali ficar durante muito tempo, quieta, sem ousar levantar os olhos e imaginar qualquer rosto de bebé. Parecia mentalizar-se, ganhar coragem ou pensar qualquer outra coisa que me atraía mas ainda não sabia compreender.
A cada noite, os olhos melindrados de verde daquela mulher preenchiam-me de felicidade. Sem que ela me olhasse, eu guardava a imagem daqueles olhos e sentia serem os mais belos do mundo. Tê-los inclinados na minha direcção seria o mais belo do mundo, acreditava eu com a fé que ainda não tinha.
Eu sei que as mulheres escolhem os filhos ainda sementes e os alimentam à luz dessa imagem até ao dia em que, por fim, os podem agarrar como fruto maduro junto ao peito. Contudo, a história inverte-se de quando a quando - foi o que aconteceu com a mulher de olhos verdes, pois ela nunca me havia sonhado e eu já a tinha escolhido como mãe.
Creio que sou muito mais mãe do que filha daquela mulher, pois toda a vida a vejo como uma criança abandonada no meio do bosque que me apaixona e que quero socorrer. E toda a vida continuo a pairar naquele lugar de origem, mesmo depois de ter mergulhado na sua barriga de algodão, desejosa de que ela me veja, que ainda me escolha.
Olha para mim, repito eu ardentemente com o coração que hoje tenho.