Julgo que a poesia não cabe num dia, nem em qualquer outra fronteira. Eu vejo-a dormir nas cabeceiras, balançar na copa das árvores e na superfície do mar, rugir no jeito com que os homens agarram o corpo das mulheres, deitar-se dentro das camas ao lado das cabeceiras. Sinto-a por toda a parte, sem fim, como um verdadeiro alívio no mundo. Então todos os dias celebram a poesia e quem a consegue escrever é imenso e eterno também.
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21/03/2016
25/02/2016
Pinheiro
O pinheiro da propriedade vizinha à casa de meus pais era uma árvore lindíssima, o verdadeiro farol da rua, mais alta que todos os telhados das casas.
Lembro-me da presença do pinheiro na minha infância, a vigiar todos os passos da minha infância, a partir do quintal do lado, como naquela primeira vez que subi para uma bicicleta de criança.
Pelo Natal, era costume o meu vizinho sufocá-lo de bolas e farripas, então o pinheiro inchava de vaidade e eu não resistia. Todos os Invernos me apaixonava por ele.
Pelo Natal, era costume o meu vizinho sufocá-lo de bolas e farripas, então o pinheiro inchava de vaidade e eu não resistia. Todos os Invernos me apaixonava por ele.
O pinheiro crescia mais depressa do que eu, vivia num espreguiço sem fim, e eu encantava-me com aquilo. Não havia árvore mais bonita e fiel no mundo.
Uma destas tardes, chegando a casa de meus pais, vi que o pinheiro já lá não estava. Os novos proprietários da casa vizinha tinham derrubado, sem aviso e sem dó, a árvore mais bonita do meu mundo. Foi como se a tivessem feito desaparecer por magia, pois nada dela deixaram para lembrança. Simplesmente a tarde caiu, eu cheguei a casa de meus pais e o farol da minha infância já não existia.
O espaço vazio daquele quintal faz-me agora pensar na efemeridade da vida, até para um pinheiro. Principalmente para um pinheiro que é o ponto de observação privilegiado de uma rua, tudo sabe sobre ela e não dá sinais de querer morrer.
Sinto saudades e penso na criança que eu era e só ele, gigante, guardava.
Aquele pinheiro foi uma árvore lindíssima, mais alta que todas as pessoas da minha infância.
04/01/2016
Paixão
Há vestígios de festa por toda a cidade.
Há ondas gigantes a rebentar por toda a costa.
No intervalo entre uma última canção e a espuma do mar a crescer, há um homem que toca uma mulher. Toca-a como um homem toca uma mulher, o que muito se assemelha a um verdadeiro oceano. Ora meigo, ora bravo, ele toca-a como quer e ela sabe que é exactamente aquilo o que tentaram descrever todos os poetas.
Ela toca-o e toca em todo o oceano. As suas mãos mergulham no corpo do homem e tanto descansam e flutuam como se enrolam na ondulação mais violenta da tempestade.
Estar apaixonado é descobrir o oceano.
O homem toca a mulher e ela nada sabe sobre o amor. Sabe lançar-se na corrente e suster a respiração a rir.
Ao abandoná-lo, ela percebe que há vestígios de festa por toda a cidade, que há ondas gigantes a rebentar por toda a costa. Pensa no homem, no fundo dos olhos do homem, imersos pelas águas mais cativantes de que se lembra.
Ela sente o quão é difícil ter de largar um oceano.
Ela toca-o e toca em todo o oceano. As suas mãos mergulham no corpo do homem e tanto descansam e flutuam como se enrolam na ondulação mais violenta da tempestade.
Estar apaixonado é descobrir o oceano.
O homem toca a mulher e ela nada sabe sobre o amor. Sabe lançar-se na corrente e suster a respiração a rir.
Ao abandoná-lo, ela percebe que há vestígios de festa por toda a cidade, que há ondas gigantes a rebentar por toda a costa. Pensa no homem, no fundo dos olhos do homem, imersos pelas águas mais cativantes de que se lembra.
Ela sente o quão é difícil ter de largar um oceano.
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